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NÃO SEJA INGÊNUO!

“Não seja ingênuo!”, disse o pai ao filho, com o tom incisivo de um xingamento. O menino, acabrunhado, encolheu-se, quase disposto a esconder a cabeça debaixo da terra. Decerto sentindo-se ínfimo aos olhos do pai, irado e frustrado. Indiferente à prostração e constrangimento do filho, o pai repetiu a crítica, ainda mais contundente: “você não acha que já está na hora de deixar de ser ingênuo? ”.

Não sei ao certo qual foi o fato que gerou tamanha fúria pois consegui captar apenas o final do que me pareceu ser um diálogo, pois o menino ensimesmou-se. Talvez – e daqui para a frente é minha imaginação – nem sequer soubesse se havia, mesmo, cometido algum erro, ou pudesse entender o que a sua ingenuidade tinha a ver com a frustração do pai.

Em minhas elucubrações, pensei o quanto é duro perder a ingenuidade e porque ser ingênuo é considerado algo negativo. O que foi feito de nós?

Lido com adultos nada ingênuos. Ao contrário, são matreiros e maliciosos. Jogam verde para colher maduro. Aliás, estão sempre jogando. Suas cartadas são políticas, dissimuladas ou manipuladoras, tentando levar os outros para algum lugar que desconhecem, ou querendo ganhar alguma coisa, sem que isso seja declarado. Jogam consigo, jogam com os outros, jogam com a vida. Perderam completamente a ingenuidade.

O pior, para esses não-ingênuos, é que projetam nos outros aquilo que são. Acham que sempre existe uma mensagem subliminar, nas entrelinhas, uma carta na manga que será sacada a qualquer momento, alguém vai lhes passar a perna, na certeza de que um discurso bonito tem segundas intenções. Acreditam que o interlocutor não quer ajudar, mas sim vender algo e arrancar o seu dinheiro.

O esperto, antônimo do ingênuo nessa abordagem, está a um passo do cínico, a figura humana que atingiu o seu grau mais deplorável.

Quem perde a ingenuidade perde também a confiança nos outros. Transforma a sua vida em um inferno, pois esse é nome do lugar onde ninguém confia em ninguém.

Quem mantém a ingenuidade, ainda que sofra algumas decepções e traições, garante que a sua criança interior continue viva. É justamente ela que vai socorrer você todas as vezes que o mórbido, seja na forma de esperto ou de cínico, apareça, sorrateiro, disposto a cruzar o seu caminho. Celebre e cultive sua ingenuidade, sem receio de parecer vulnerável. É um traço precioso!

Roberto Tranjan

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ATENTE PARA A JUSTA MEDIDA!

O nosso maior dilema não é discernir entre o que é bom e o mau – ou o bem e o mal. Sabemos distinguir um do outro. Temos, como ajuda, os registros em nossas células ancestrais que carregam em si a distinção moral. Mesmo sem um conhecimento fundamentado, somos capazes de perceber que determinadas escolhas são melhores que outras. Somos seres morais, além de inteligentes.

É certo que, mesmo assim, nem sempre nos inclinamos às melhores opções. Às vezes, incompreensivelmente embarcamos em canoas sabidamente furadas. Então, somos também amorais, além de ignorantes. Mas esse é assunto para uma próxima vez. O tema, aqui, é outro.

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LIVRE-SE DE FARDOS INÚTEIS

As histórias de Nasrudin, da tradição sufi, trazem ensinamentos que circulam em todo o Oriente Médio e avançam para outras culturas. A que reproduzo, a seguir, está entre as que mais aprecio.

Conta que Nasrudin estava à margem do rio e queria passar para o outro lado. Como as águas estavam muito agitadas, seria muito perigoso fazer a travessia a nado. Ele, então, avistou uma pequena canoa presa na vegetação ribeirinha. Agiu rapidamente, colocando a embarcação no leito do rio e pôs-se a remar para o outro lado, onde conseguiu chegar sem sobressaltos.

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COMO NÃO TORNAR UM PROBLEMA AINDA PIOR.

Quando estamos vivenciando uma crise, muitas vezes, sem querer, aumentamos o seu tamanho ao adotar soluções simplificadas para problemas complexos.

Para ficar mais claro, veja este exemplo. Imagine que um agricultor receba a informação de que sua plantação está sendo devastada por um tipo de inseto. Qual a primeira providência que ele toma? Aplicar inseticida. E isso tem lógica: contra inseto, nada melhor do que inseticida. Essa lógica deriva do pensamento simplificado. Quanto mais inseticida, menos inseto. E está resolvido o problema. Está mesmo?

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A ARTE DE ADMINISTRAR O TEMPO

É por conta dela que adiamos o treino na academia, as aulas de inglês, a leitura de um bom livroa visita ao amigo. Falta de tempo! Essa tem sido a desculpa mais comum entre os mortais comuns, com o perdão da redundância. Digo mortais comuns não para desmerecer, mas para destacá-los de uma outra turma de mortais que parece lidar muito bem com essa questão do tempo.

O leitor poderia supor tratar-se de uma habilidade de gestão do tempo, algo como saber classificar os afazeres entre os mais importantes e os mais urgentes. De fato, esse cuidado é uma das características positivas daqueles que lidam bem com o tempo. Mas isso é apenas uma parte, e nem mesmo a mais importante, desse típico dilema.

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ABRA ESPAÇO PARA O DIÁLOGO.

Relacionamentos! Eis um dos maiores desafios da empresa que se pretende progressista, preparada para os novos tempos. Muitos líderes preferem escapar desse tema tanto errático quanto controverso, refugiando-se em programas um pouco mais amenos, com algum tipo de regularidade.

Sim! Pode-se regulamentar, padronizar e normatizar os processos por intermédio dos quais se elabora o trabalho, resultando nos produtos e serviços de uma empresa. Esse exercício é útil e necessário, mas não é essencial e determinante. Os processos e arranjos organizacionais sempre serão realizados por pessoas e, portanto, têm a ver com a relação entre elas. Então, não há saída: por mais que tentem, os líderes não conseguirão se livrar do difícil desafio de administrar os relacionamentos nos negócios.

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CRESCER!

Vez ou outra pergunto a empresários sobre o seu principal objetivo. Crescer! Essa é a resposta mais comum. E são muitos os argumentos que o sustentam: abocanhar uma fatia maior de mercado, assegurar a liderança, apoderar-se da carteira de clientes, obter ganhos de produtividade, aumentar os lucros ou satisfazer a volúpia dos investidores. Todos são razoáveis e fazem parte das ambições empresariais. O problema é que essa resposta é embasada no quanto, não no quem. Com quem e para quem crescer é mais importante do que qualquer taxa ou cifra que possa representar o crescimento.

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CUIDADO COM A COBRA!

Para resolver um problema é preciso compreender o problema. Compreender um problema não é uma questão de tempo, é uma questão de percepção. A mudança é contínua, mas a mudança de percepção é repentina. A compreensão e a percepção não pertencem ao tempo. “Estamos em transição” é uma frase de quem se acostumou a conviver com o problema.

Somos prisioneiros dos nossos pontos de vista e a única maneira de libertar-nos é ampliar o campo de visão. Caso contrário, estaremos apenas adiando o problema e ele sempre retorna com outro nome.

“Era uma vez um mercador de tapetes que percebeu que havia uma grande ondulação no centro de seu mais belo tapete. Pisou na ondulação para achatá-la e conseguiu. Mas a ondulação surgiu em outro lugar. Pisou de novo e ela desapareceu – por um momento, até reaparecer em outro lugar. O mercador continuou a pular sobre o tapete, pisando e achatando, com raiva, as ondulações, até que por fim levantou uma das pontas do tapete e viu uma cobra furiosa sair debaixo dele”.

Há um desperdício de energia na repetição, na volta ao passado, na reação. Quando descubro que a ondulação não é o problema, mas a cobra, estou agora diante de um desafio. E o desafio, diferentemente do problema, traz a energia, a vitalidade, a capacidade e o impulso para lidar com ele de maneira imediata.

Problemas consomem energia, desafios geram energia. O desafio, da maneira como é definido, dá um senso de vitalidade, de dignidade e de conquista.

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VOCÊ VAI PRECISAR DE UM GPS

Tente imaginar o mundo e o mercado daqui cinco ou dez anos. Você espera um ambiente mais tranquilo, com menos entropia, confusões e tumultos? Pense nos efeitos da tecnologia na última década. Agora, projete-os para frente. Consegue imaginar o que poderá acontecer?

Você não sabe, eu não sei, tal como ninguém, nem mesmo os melhores futurólogos. Mas uma coisa é certa: cada vez mais vamos precisar de um GPS que nos conduza ou ao menos nos impeça de perder de vista o Norte.

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Um exercício de Discernimento

Sabe o que nos maltrata demais? A nossa leitura da realidade, sempre parcial, incompleta, tendenciosa, equivocada. A coisa se agrava quando criamos um enredo ficcional que acreditamos ser a própria realidade, mas que só existe em nossa percepção. E piora sobremaneira quando escolhemos remoer mágoas imaginárias, como quem vive cutucando uma ferida, impedindo-a de sarar. É nessa hora que o discernimento torna-se imprescindível.

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